Liguem a TV: vamos estudar!
Novelas,
seriados, desenhos animados, noticiários... Qualquer programa de televisão pode
ser usado na sala de aula para introduzir ou aprofundar conteúdos e para
discutir valores e comportamento
Ela usa ação, imagens e sons especialmente selecionados para prender a
atenção da garotada. Ajuda na formação de memórias de longa duração. É capaz de
desenvolver a imaginação dos jovens, e as histórias que ela conta são tema de
conversas e debates acalorados entre eles. E tem mais: os alunos certamente
permanecem de olhos grudados nela em tempo igual ou superior ao que ficam na
escola. Dá para desprezar uma ferramenta pedagógica com essas características?
Estamos falando da televisão, esse meio de comunicação tão importante quanto
controverso, que já despertou o amor e o ódio de muitos educadores, psicólogos e
sociólogos. Alguns dizem que a TV aliena não produz
conhecimento. Outros a acusam de promover a
violência e o consumismo. A programação que é veiculada nas dezenas de canais
abertos ou por assinatura segue, sim, a lógica do entretenimento e do mercado:
permanecem mais tempo em cartaz novelas, seriados, telejornais e outros gêneros
que têm audiência, e, portanto, patrocinadores. Mas sua influência é inegável.
Há dois anos, um estudo do Ateliê Aurora, programa de pós-graduação em educação
da Universidade Federal de Santa Catarina, constatou que assistir televisão era
a atividade mais marcante da rotina das crianças de todos os contextos sociais.
Foram entrevistados alunos de Florianópolis de uma escola particular de elite e
de escolas públicas localizadas em favela, no centro da cidade e em vila de
pescadores. "A TV não é perfeita e o sistema educativo não vai mudá-la.
Então, a escola deve usar esse recurso em benefício próprio", afirma Ismar
de Oliveira, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da Escola de Comunicação
e Artes da Universidade de São Paulo (USP).
Com a profusão de canais abertos e por assinatura, a televisão oferece
programas para todas as faixas etárias. Noticiários, novelas, minisséries,
seriados, talk shows, documentários, programas de auditório, desenhos animados,
filmes, clipes... Eles podem ser usados para introduzir conteúdos,
aprofundá-los ou ilustrá-los ou para debates sobre comportamento e ética.
Selecione os que se encaixam em seus objetivos e fique de olho para perceber
onde está o interesse da garotada.
Tudo na TV pode ser aproveitado
Não é nada fácil para os adultos que cresceram ouvindo críticas a esse meio
de comunicação tratá-lo bem. Segundo Maria Thereza Fraga Rocco, professora da
Faculdade de Educação da USP, há uma tendência por parte de pais e professores
em olhar a telinha como o demônio responsável pelo (mau) comportamento das
crianças: "Se ela fosse tão influente na atitude das pessoas, bastaria
termos uma TV perfeita para vivermos na sociedade dos sonhos". Existem os
programas violentos, os que veiculam valores distantes do que os educadores
querem passar aos alunos e os que tratam a realidade de maneira simplista ou
equivocada. Mas inclusive esses podem render bons frutos: "Tudo o que
passa na televisão é educativo. Basta o professor fazer a intervenção certa e
propiciar momentos de debate e reflexão", garante José Manuel Moran,
professor das Faculdades Sumaré, em São Paulo, e pesquisador na área de
tecnologias aplicadas à educação.
Portanto, abandone o discurso que rotula a telinha como a raiz de todos os
males e procure assisti-la com outros olhos. Foi o que fez o coordenador
pedagógico do Colégio Pentágono, em São Paulo. Carlos Nascimento Júnior
precisava encontrar um assunto de interesse dos alunos de 5ª e 6ª séries para
ser tema do jornal do colégio no ano passado: "Sempre achei a programação
da televisão ruim e fútil e me recusava a perder o pouco tempo livre na frente
dela. Mas percebi como esse meio de comunicação é importante na vida das
crianças e resolvi dar mais atenção a ele".
Carlos notou a influência dos desenhos animados na fala e nas atitudes dos
garotos e não teve dúvidas. Os jovens de 5ª e 6ª séries levantaram os desenhos
preferidos pelos colegas da 4ª série, assistiram aos vídeos, discutiram a
maneira como os personagens se relacionavam muitas vezes com brigas e violência
e conceitos de justiça e amizade. Cada um escreveu um artigo para a publicação
baseado nesses debates. Em um dos episódios, um erro científico: duas naves
explodem no espaço produzindo barulho e fogo. "Como pode haver som no
espaço se ele não se propaga no vácuo? (...) O fogo precisa de oxigênio para
queimar, e no espaço não tem oxigênio", questionou Isabela Tavares em seu
texto.
O melhor ela faz por você: prender a atenção
No ano passado, pesquisa do Centro Brasileiro de Mídia para Crianças e
Adolescentes (Midiativa), em São Paulo, constatou que a televisão começa a ter
fortes concorrentes ao disputar a preciosa atenção de crianças e adolescentes.
Internet e celular estão entrando com tudo como opção de lazer e divertimento,
mas em camadas pequenas da população. Os jovens ainda gastam em média de quatro
a cinco horas por dia na frente de um aparelho de televisão.
Elvira Souza Lima, pesquisadora na área de neurociências aplicada à mídia, de
São Paulo, explica que a linguagem que a TV usa imagens em movimento,
coloridas, trabalhadas com cortes e fusões e envolvidas em trilhas sonoras
especialmente escolhidas mobiliza o sistema límbico, estrutura do cérebro
responsável pelas emoções, o que leva a um estado de atenção concentrada.
Alguns programas ainda desafiam a imaginação ao propor questões e não dar as
respostas imediatamente. "A novela e as minisséries fazem isso muito bem,
terminando os capítulos com suspense", exemplifica Elvira.
Olhar crítico vem com debates
Com tantos recursos usados para emocionar e prender a atenção, será que a TV
não pode se tornar mesmo um instrumento de manipulação de mentes? Sim, pode.
Por isso, levar a televisão para a sala de aula implica também ensinar os
alunos a vê-la com olhar crítico. Para Gilka Girardello, coordenadora do Ateliê
Aurora, o fundamental é fazê-los entender que a televisão não é uma
"janela para o mundo" como gostam de caracterizar os mais
entusiasmados: "Ela é um recorte muito bem produzido e montado da
realidade e não a realidade".
Estimular os alunos a opinar sobre os programas e chamar a atenção deles para
os cortes das cenas e o uso da trilha sonora ajuda a criança a perceber as
diversas possibilidades do meio. José Manuel Moran afirma que, quando os alunos
produzem programas, captando imagens e selecionando cenas, fica mais fácil
perceber as intenções de quem faz televisão. Mas, para tanto, a escola
precisaria ter equipamentos. Se isso não for viável, um caminho é comparar os programas
com outros produtos culturais: uma novela com o livro que a originou; o
telejornal com o jornal impresso; o desenho animado com gibis.
Ao adotar a televisão como recurso pedagógico, convém avisar os pais eles podem
ter preconceitos e achar que a escola está enrolando ao colocar a turma na
frente do aparelho "em vez de" dar aula. Durante a conversa, Gilka
Girardello aconselha o professor a enfatizar que os programas selecionados têm
ligação com o conteúdo estudado. Algumas dinâmicas podem ser usadas, como a
discussão sobre os valores morais e éticos que uma telenovela está veiculando e
a análise de telejornais.
Como usar a TV em sala de aula
Para que o uso produza resultados positivos na aprendizagem, antes de ligar o
aparelho lembre-se de:
- Gravar o programa e selecionar as cenas que serão exibidas aos alunos,
fazendo o recorte dentro dos seus objetivos.
- Planejar as aulas propondo exercícios e atividades relacionadas ao vídeo:
eles não podem ser exibidos como se fossem auto-explicáveis.
- Checar a qualidade da imagem e do som.
- Parar a exibição sempre que necessário para comentários ou explicações.
- Pedir para os alunos anotarem as cenas mais importantes, as falas e os
detalhes mais marcantes.
- Rever as cenas mais importantes.
- Observar as reações do grupo para voltar aos pontos da exibição que a turma
mais se deteve.
Como NÃO usar a telinha em aula
Sem critério e objetivos pedagógicos claros, a televisão pode virar embromação.
Portanto, evite:
- Usar como tapa-buraco quando falta professor ou acontece algum contratempo.
- Passar vídeo que não tenha relação com o conteúdo: as crianças percebem que
essa é uma forma de camuflar a falta de planejamento.
- Usar o recurso em todas as aulas e esquecer outras dinâmicas: o exagero
diminui a eficiência e empobrece as atividades.
- Criticar sistematicamente possíveis defeitos de informação ou estéticos: se
eles existirem, desafie a turma a encontrá-los e a questioná-los.
- Assistir à televisão com os alunos sem discussão: qualquer assunto que venha
da televisão deve ser integrado com o tema da aula.
“ A televisão faz parte da cultura de
massa, é uma das mídias que transmite a mesma
Informação
para muitas pessoas ao mesmo tempo, e
isso permite realizar a comunicação de
maneira
socialmente igualitária tornando a relação mais prazerosa com novos saberes.
Levar a
televisão para a sala de aula implica também ensinar os alunos a vê-la com
olhar crítico.
POR LUCIANA GRUPO G.